Opinião: Florestas de cacau e produção sustentável na Amazônia

31 Agosto 2018

Na maior floresta tropical do mundo o desmatamento acumula danos irreversíveis. Mais de 20% de sua cobertura original já desapareceu o que está impactando o clima em todo o planeta. Reverter esse cenário e mudar o destino aparentemente inevitável da Amazônia representa um dos grandes desafios do nosso tempo. Apostar na produção aliada a conservação e recuperação de áreas degradadas se mostra como caminho promissor na busca por modelos sustentáveis de desenvolvimento da região.

O desmatamento na Amazônia Legal, área que compreende nove estados brasileiros, cresceu cinco vezes em três anos. Esse dado preocupante faz parte do relatório apresentado recentemente pelo Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e mostra que a área desmatada no mês de março deste ano foi de 287 km2, ante 58 mk2 registrados em março de 2015. O levantamento também mostrou que 63% do desmatamento se deu em terras privadas ou “sob diversos estágios de posse”, e 33%, em assentamentos da reforma agrária. Outros 3% foram em unidades de conservação e apenas 1% em terras indígenas.

Os números indicam a velocidade com que a floresta está sendo derrubada, o que coloca um sentido de urgência na proposição de soluções mais eficientes e permanentes. Não bastam ações isoladas, é necessário um esforço conjunto e complementar entre os setores público e privado, formando uma frente coesa pela Amazônia. E é preciso colocar o futuro da floresta no centro da discussão. Como mudar o uso e ocupação do solo considerando a necessidade de desenvolvimento econômico e social, especialmente de pequenos produtores e de produtores familiares? Recentemente a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura lançou o documento Eleições 2018 com 28 propostas indicando caminhos para tornar mais eficiente e sustentável o uso do solo no país através de ações concretas nos próximos quatro anos.

Chocolate para restaurar a floresta

 

Uma das formas para avançar no melhor uso do solo é por meio da produção agropecuária climaticamente inteligente na região. Neste sentido o cacau tem se demonstrado promissor pelo seu potencial produtivo e sua capacidade na restauração produtiva de áreas degradadas e sub-utilizadas. O cacau é nativo da região Amazônica e tem uma demanda interna e global crescentes. Atualmente, a produção nacional, de cerca de 200 mil toneladas/ano, é insuficiente para atender o mercado interno e está longe de atingir o mercado internacional, que também apresenta ano a ano uma oferta reprimida de amêndoas de cacau.

Na outra ponta, temos um contingente de pequenos produtores, com técnicas de manejo que podem e precisam ser melhoradas. A adoção de sistemas agroflorestais (SAF) com cacau e outras espécies nativas de ciclo curto e longo, favorecendo a restauração do solo, associado a recuperação da cobertura vegetal, é uma das possibilidades mais promissoras.

Trata-se também de uma excelente oportunidade para a adoção de práticas agrícolas climaticamente inteligentes. O estudo “BALANÇO DE CARBONO NA PRODUÇÃO AGRÍCOLA FAMILIAR NA AMAZÔNIA, Cenários e oportunidades” realizado pela Solidaridad, em parceria com o Imaflora, publicado no início deste ano concluiu que a adoção de sistemas agroflorestais em cultivos de cacau associado a práticas mais eficientes em áreas consolidadas de cultivo, poderia remover até 2,27 tCO2e/ha/ano e produziria 67% mais amêndoas, as quais estariam associadas a 20% da redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE) por tonelada de amêndoas de cacau produzida.

O cacau também representa um ativo importante para o desenvolvimento da Amazônia. Representa uma alternativa à produção extensiva de gado pelo alto valor comercial do produto aliado a boa produtividade na região. Se o produtor pode ganhar mais utilizando boas práticas de uso do solo em sistemas produtivos diversificados, promovendo a recuperação de áreas degradadas e reduzindo o desmatamento a zero, ele seguramente optará pela adoção deste tipo de alternativa. Assim ganha o produtor, ganha a natureza e ganha o clima e a sociedade.

Cocoa Action Brasil

A produção sustentável do cacau, capaz de gerar impactos econômicos, sociais e ambientais, de forma consistente e permanente também é o foco do Cocoa Action, programa desenvolvido pela Fundação Mundial do Cacau (World Cocoa Foundation - WCF) que reúne produtores, processadores de cacau e indústrias de chocolate ao redor do planeta.

No último dia 22 de agosto, participei do 1O Fórum Anual do Cacau realizado pela WCF em Brasília. O evento reuniu os principais atores do setor para um diálogo construtivo sobre o presente e o futuro da produção de cacau no país. A iniciativa faz parte das atividades do Cocoa Action no seu primeiro ano de atuação no Brasil.

O evento representou uma excelente oportunidade para aproximar os principais atores do setor e também os elos da cadeia produtiva em torno do desafio de tornar a atividade cada vez mais produtiva, eficiente e sustentável. Acredito que esta iniciativa, que segundo o Cocoa Action deverá ser realizado anualmente no país, tem um grande potencial de se tornar uma importante plataforma de diálogo setorial para ampliar a produção sustentável de cacau no país.

Em outubro próximo o Brasil sediará, em São Paulo entre os dias 23 e 24 de outubro, a reunião anual global do WCF (Global Partnership Meeting), que contará com a participação dos países produtores e consumidores de cacau. discutirá entre outros como ampliar as parcerias público-privadas no setor cacaueiro internacional, de maneira a promover globalmente a sustentabilidade da cacauicultura.

É a primeira vez que o Global Partnership Meeting vai acontecer na América do Sul, especificamente no Brasil. Trata-se da possível sinalização sobre o potencial do país em se tornar no futuro líder na produção de cacau sustentável através da adoção e disseminação de práticas climaticamente inteligentes que trazem benefícios para o produtor, o meio ambiente, o clima e a sociedade.

Atuação na Transamazônica

Desde 2016, a Solidaridad desenvolve no Pará o Programa de Cacau e Pecuária, no âmbito da iniciativa "Territórios Inclusivos e Sustentáveis". A iniciativa promove sistemas produtivos de baixo carbono no contexto da agricultura familiar na Amazônia que buscam aumentar a produtividade e ao mesmo tempo reduzir o desmatamento. Saiba mais sobre esse programa acessando esse deo.

 

 

 

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    Rodrigo Castro

    Gerente oficina Brasil